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domingo, 21 de maio de 2017

Crise: Momento de Agir e Pensar


Precisamos estar ALERTAS, pois estamos vivendo em um grande período de CRISE, em TODOS os campos: ético e moral, ecológico, econômico, político, religioso, etc.
A CRISE favorece a busca por NOVAS soluções, possibilita que trazemos novos rumos para a humanidade. E instiga para o que há de MELHOR no ser humano venha à tona!
No entanto, a CRISE também colabora para o que há de PIOR no ser humano FLORESÇA, em que o ÓDIO tome conta da razão. Foi isso que aconteceu no NAZOFASCISMO, na ditadura militar brasileira.
O ATUAL modelo de sociedade está ESFACELADO. O ser humano está arrebentado, bem como o meio ambiente.
Temos o DEVER de pensar e agir para criarmos novas UTOPIAS, novas perspectivas de mundo. Porém, precisamos ter sempre o CUIDADO para que essas utopias não oprimam mais o ser humano do que a atual.
AJAMOS INCESSANTEMENTE COM O MÁXIMO DE FORÇAS E CUIDADO!



sábado, 22 de abril de 2017

O jogo “Baleia Azul”: Um alerta para a Sociedade

Prof. Wilson Horvath

Postagens sobre o jogo baleia azul, que propõe uma série de desafios macabros, culminando no suicídio do participante, viralizaram nas redes social nas últimas semanas e despertaram tanto a preocupação de pais, educadores, agentes de saúde e segurança, como motivaram uma onda de piadas de mau gosto e soluções insanas.



O Jogo 


O jogo mescla o mundo virtual com o real, ele é um jogo de Realidade Alternativa (Alternate Reality Game – ARG). Um ARG é uma realidade fictícia sobreposta no mundo real. Ele ocorre simultaneamente nesses dois cenários e o jogador não consegue fazer uma clara separação entres eles, tornando-os, para ele, uma única realidade.
Para poder participar do jogo é preciso receber um convite de grupos fechados de redes sociais. Os membros são em geral crianças e adolescentes, em média de 12 a 14 anos.
O jogo consiste em uma série de cinquenta tarefas sinistras enviadas diariamente, sendo a última delas o suicídio do jogador. Elas são enviadas à vítima por um "curador", pessoa responsável por passar as “missões” a serem cumpridas.

Os Desafios


1.            Com uma faca, escrever a sigla "F57" na palma da mão e em seguida enviar uma foto para o curador.
2.            Assistir filmes de terror e psicodélicos às 4h20 da manhã. Os filmes são indicados pelo curador, que depois faz perguntas sobre eles para verificar se a pessoa realmente assistiu.
3.            Cortar o braço com uma faca, "três cortes grandes", eles têm que ser sobre as veias, mas não precisam ser muito profundos. Depois devem ser enviar a foto para o curador.
4.            Desenhar uma baleia azul e enviar a foto para o curador.
5.            Uma espécie de “batismo”, em que o membro se torna realmente uma baleia, para tal ele deve escrever "SIM" em sua perna, ou cortar-se muitas vezes. Ele deve se auto castigar, punir-se.
6.            Tarefa secreta, o curador sempre muda o sexto desafio, baseado no perfil do jogador.
7.            Escrever em seu perfil da sua rede social: “#i_am_whale” (Eu sou uma Baleia).
8.            O jogador terá uma “missão” baseada no seu maior medo, o curador quer fazer a vítima superar esse medo.
9.            Acordar as 4h20 da manhã e subir em um telhado, quanto mais alto melhor.
10.         Desenhar uma foto de uma baleia azul na mão com uma navalha e enviar a foto para o curador.
11.         Assistir filmes de terror e psicodélicos, todas as tardes.
12.         Ouvir as músicas enviadas pelos "curadores".
13.         Cortar os lábios.
14.         Furar as mãos com agulhas.
15.         Fazer algo doloroso, "machucar-se", provocar uma doença.
16.         Procurar um telhado, o mais alto possível, e ficar na borda por 22 minutos.
17.         Subir em uma ponte e ficar na borda por 22 minutos.
18.         Fazer uma inimizade.
19.         No próximo passo, o curador lhe passará uma tarefa, a fim de verificar a pessoa é de confiança.
20.         Encontrar outra “baleia azul”, outro participante do jogo, que o curador indicará.
21.         Se pendurar mais uma vez em um telhado alto, desta vez é preciso fazer algo perigoso que o desafio dezesseis.
22.         Missão secreta, baseada no perfil do jogador, cada um recebe uma missão diferente.
23.         Nova reunião com uma baleia azul (outro jogador) que o curador indicar.
24.         O curador indica a data da morte do jogador, e ela tem que aceitar.
25.         Acordar as 4h20 e ir a uma estrada de ferro, férrea (essa tarefa pode ser substituída por outra de acordo com a localidade do participante).
26.         Não falar com ninguém o dia todo.
27.         Fazer um voto de que a pessoa é realmente uma Baleia Azul.
28.         Todos os dias, o jogador de acordar às 4h20 e assistir a vídeos de terror, ouvir música que “eles” lhe enviam, fazer um corte em seu corpo por dia, falar “com uma baleia”.
29.      A partir deste ponto, o curador fará a vítima repetir as “missões” já realizadas.
50.      Tirar a própria vida.

Fake News


O jogo recebeu esse nome (Baleia Azul) depois do suicídio de uma jovem russa, em 2015, momentos antes da tragédia, ela publicou em sua página na rede social uma foto de uma baleia-azul e a palavra “End” (Fim, em inglês).
A jovem fez uma alusão errônea ao fato de algumas baleias dessa espécie encalharem nas praias, como suicídio. (A explicação biológica para as baleias, como outros animais marinhos, encalharem está na desorientação decorrente do aquecimento global, da poluição dos mares e escassez de alimentos).
Após o suicídio da jovem se gerou um boato, uma mentira, que a jovem havia tirado a própria vida por participar de um jogo ou uma espécie de seita sinistra denominada “Blue Whale” (Baleia Azul).
O boato se espalhou rapidamente e o que era uma mentira começou a ganhar corpo. Também é falso, a maioria dos fatos atribuídos ao jogo, como foi o caso de um jovem que distribuiu balas envenenadas para crianças de três escolas em Minas Gerais. (Embora esse fato seja falso, não se descarta a possibilidade que eventos semelhantes possam acontecer).
Assim, pessoas com comportamento e tendências sadomasoquistas (que gostam de fazer outras sofrerem) e psicopatas, escondidos no anonimato do mundo virtual, assumem o papel do “curador”. E pessoas que já sofriam anteriormente por depressão, transtorno do pânico, ansiedade, baixa autoestima, ou outra dor da alma, encontram no jogo uma forma trágica de abreviarem o seu sofrimento.

Um tabu que precisa ser discutido


O suicídio é um assunto muito sério, mas é tido como “tabu”, pouco se fala e reflete sobre ele. No entanto, ele está muito presente em nosso meio, sendo muito difícil alguém que não conheça uma pessoa que tenha se matado ou que não tenha tido esse horrível pensamento, ao menos, uma vez na vida.
Aproximadamente um milhão de pessoas se suicidam todos os anos e esse número vem crescendo ao longo do tempo. Uma pessoa comete suicídio a cada 40 segundos em alguma parte do globo terrestre.
O suicídio é a maior causa de morte não natural no mundo! Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, todos os anos, o número de suicídio é 2,5 vezes a mais do que o de homicídios. Ele mata mais do que a somatória de pessoas mortas em guerras, assassinatos passionais e acidentes.
De 1990 ao ano 2000 houve um aumento de 18,8%. E do início do milênio até nossos dias o crescimento saltou para 33,3%. O número de homens que se matam é 3,5 vezes maior do que entre mulheres no mundo, no Brasil esse número é 3,7 vezes.
O suicídio ocorre tanto entre indivíduos que possuem alguma religião ou acreditam em Deus como em ateus. A religião pode cooperar para que pessoas não se matem, que desistam dessa ideia. Mas também pode contribuir para que outros o façam em virtude do peso de alguns preconceitos.
O suicídio atinge pessoas de todas as classes sociais, etnias e idades. Mas os números são maiores entre os pobres e pessoas de etnias discriminadas socialmente.
Os idosos são os que mais cometem atentados contra a sua própria vida. No entanto, o número de crianças e adolescentes vem crescendo assustadoramente.

Suicídio: Grito de Dor




O suicídio é o “Grito Último” de desespero de uma pessoa dado no momento em que ela não consegue encontrar mais saídas para o seu sofrimento.
Ninguém acorda em uma manhã e do nada se mata. Ao contrário, esse triste sentimento acompanha o sujeito por um longo período, muitas vezes por anos.
Ele ocorre após um longo período de aflição, em que a vítima já tentou resolver o seu problema de todas as formas possíveis ao seu alcance ou, pelo menos, aquelas que ela consegue enxergar. A dor que ela sente é tão grande, que ela não tem condições de encontrar saídas, perde a esperança de um futuro melhor.

Causas do Suicídio

As causas que levam uma pessoa a retirar sua vida são várias, essas estão, em geral conjugadas e são concomitantes, sendo elas psicológicas e também biológicas. Apresentamos algumas delas, lembrando que elas estão ligadas a outras.
Uma doença terminal como o câncer e AIDS, ou transtornos mentais (anorexia, bipolaridade, bulimia, depressão, distúrbios da ansiedade e personalidade, esquizofrenia).
Morte de um familiar ou amigo muito querido, a perda deixa um vazio enorme e a pessoa não consegue superar. Traições amorosas ou abandono do cônjuge.
Violência física e psicológica, em que o agressor faz a vítima se sentir “menos” gente.
Autoestima muito baixa, a pessoa se considera muito inferior, em geral devido às atitudes que outras pessoas tiveram com ela, a começar pelos pais ou responsável.
Bullying, ele desperta no sujeito, crianças e jovens em sua maioria, ansiedade, depressão e pânico. É bom frisar que há uma enorme probabilidade de a criança que sofre bullying na escola também sofrer em casa.
Abuso de álcool e outras drogas, muitas pessoas buscam as drogas para aliviar uma dor ou vazio existencial. No entanto, com o passar do tempo, ela agrava essa dor e torna o usuário mais suscetível ao suicídio.
E problemas financeiros, desemprego, dívidas. Estresses decorrente do mundo de trabalho, pressão para bater metas abusivas, humilhações no ambiente de trabalho.

O suicídio de crianças e adolescentes 




Os dramas da vida adulta que podem provocar o suicídio chegam cada vez mais cedo às crianças e adolescentes. Crianças estão deixando de ser crianças para se tornarem “adultos em miniaturas”, as brincadeiras são substituídas por uma infinidade de atividades. Encontramos crianças cada vez com menos idade apresentado um quadro de estresse em razão de uma cobrança excessiva e exagerada dos pais.
Houve uma diminuição no número de membros das famílias desde a última metade do século passado o que contribui para o isolamento e solidão de crianças e adolescentes. Elas crescem sem contato com irmãos, primos, amigos.
Em virtude do trabalho, muitos pais passam o dia inteiro fora e quando estão em casa tem um péssimo relacionamento com os filhos, de desprezo ou os rejeitando. Assim, se o filho estiver desempenhando os “desafios” do jogo isso lhes passará despercebido.
O abuso sexual é uma das grandes causas de suicídio entre crianças e adolescentes. Ele ocorre quase sempre por um membro da família (pai-mãe, padrasto-madrasta, irmão-irmã, tio-tia, avô-avó) ou por pessoas de confiança da família como líderes religiosos, professores, grandes amigos.
E muitas vezes, o estuprador ameaça constantemente matar alguém da família. Esses fatores desestruturam o seu funcionamento psíquico e contribuem para muitos tirarem a sua vida.
Muitas crianças e adolescentes cometem suicídio por um único motivo, elas não aguentam mais apanhar. A violência física deixa sequelas profundas na alma, além das marcadas no corpo, que muitas vezes resultam no óbito da vítima.
Muitas pessoas, adultos, argumentam que “apanharam” e hoje são “normais”, que não têm traumas das surras de infância. Mas isso não é verdadeiro, haja vista que os remédios mais vendidos no Brasil são psicotrópicos, sem contar o uso de outras drogas, que as pessoas usam para tentar sanar a dor existencial. Nos consultórios psicanalíticos, a volta aos traumas da infância é frequente e muito provavelmente o principal tema da análise terapêutica.
A violência psicológica é outro mal que assola crianças e adolescentes. Muitos pais descarregam toda a sua frustração em cima dos filhos. Esse tipo de violência é muitas vezes mais dolorido e prejudicial que a violência física.
A violência psicológica envolve situações humilhantes e constrangedoras, imposição de medo extremo, insultos graves, ameaças contra a criança ou familiares, exigência extrema, rejeição e isolamento.
Crianças e adolescentes vítimas de violência familiar tendem a se tornar submissas, terem uma autoestima baixa, não saberem se defender. Por esse motivo, eles tendem a sofrer bullying também na escola. Os colegas de escola elegem “bodes expiatórios” a fim de canalizar a atenção dos demais e esconder suas fragilidades.
A questão da orientação sexual lista como um dos principais fatores para o suicídio de crianças e adolescentes. A não aceitação de pais, familiares, professores, somadas as chacotas de colegas de escolas contribuem para a criança se sentir um “ser desprezível”, “um monstro”, o que leva muitos ao suicídio.
Por fim, temos a imposição de um padrão de beleza, inexistente, irreal. Esse padrão impossível de se alcançar diminui a autoestima de jovens, os faz com que eles se sintam “feios”, pessoas indesejadas. Em especial, na entrada da adolescência, essas questões são de extrema importância!

A figura do “Curador”



O curador tem um papel fundamental no suicídio das pessoas que participam do jogo “baleia azul”, em especial crianças e adolescentes.
A princípio podemos pensar que ninguém comete suicídio por causa do jogo, mas devido a uma série de fatores interligados e o jogo apenas os motivou a fazer algo terrível que já estava dentro deles. Esse pensamento está parcialmente correto, no entanto devemos considerar com atenção a figura do “curador”.
Quem é o curador?
Em geral, ele é um adulto ou um jovem bem mais velho que as vítimas com que se relacionam virtualmente. Ele não revela a sua verdadeira identidade, se esconde no anonimato, usa um perfil “fake” (falso) para se comunicar com a vítima.
Ele é um criminoso! Um psicopata!
Muito provavelmente, no mundo real, ele seja um “pacato cidadão”! Mas na internet, no mundo virtual, ele revela a sua face “demoníaca”, por acreditar que não será descoberto e que seus crimes ficarão impunes.
O “curador”, assim como outros criminosos do mundo virtual consegue acesso a uma infinidade de informações sobre a intimidade da vítima e as usam para chantageá-la, extorquir dela dinheiro, vantagens. E no caso específico desse tipo de criminoso, para levar a vítima ao suicídio.
Ele trabalha com intimidações contra a vítima e seus familiares. Contra as vítimas, ele ameaça de revelar fotos íntimas, de expô-la ao ridículo para amigos e familiares. E também ameaça matar seus parentes, pais e outros familiares.
Muitas crianças e adolescentes e também jovens e até adultos, que a priori não se suicidariam, que entraram no jogo ou por curiosidade ou por estarem vivendo um período de tristeza acabam cometendo o atentado contra a própria vida para “salvar” os familiares ou por não conseguirem escapar das chantagens do “curador”
É bom lembrar que esse tipo de pessoa consegue manipular adultos, basta fazer uma rápida pesquisa no Google, que se encontrará milhares de casos que exemplificam esse tipo de crime. Agora, imagine o que ele consegue fazer com crianças ou com pessoas que estão abaladas psicologicamente!?

A insensibilidade e as piadas sobre o “Baleia Azul”


Após a divulgação das mortes relacionadas com o jogo “baleia azul”, “choveu” piadas sobre esses casos. As piadas quase sempre diziam que as vítimas precisariam ou de apanhar ou de trabalhar.
Piadas preconceituosas são sempre contra a “vítima” e não contra o “agressor”. As piadas servem para culpabilizar aqueles que padecem pelo seu sofrimento e com isso inocentar o verdadeiro culpado.
E nesse caso em específico, além de sátiras contra quem está em extremo estado de sofrimento, temos a indiferença da população. Há duas explicações para tal comportamento.
Primeiro, as pessoas que estão postando essas piadas têm pensamentos suicidas e com as publicações querem esconder essa fragilidade dos demais e de si próprio. Embora, esse comportamento não resolva o problema, apenas lhe dá uma breve ilusão, um alivio enquanto está fazendo a publicação ou que alguém curte ou compartilha.
Segundo, desrespeito pela humanidade, insensibilidade pela dor alheia. Nesse caso, como um filho terá coragem de procurar um pai ou mãe sabendo de sua visão e de seu preconceito para com o seu sofrimento?
Não é fácil o filho se abrir com um adulto! Ele sente vergonha! Medo! Ainda mais se os pais o rebaixam constantemente. Nesse caso, o filho prefere conviver sozinho com seu sofrimento a ter um novo ao contar para os pais.
O mesmo vale para profissionais da área da saúde, educação e segurança. Como um aluno irá procurar o professor que só sabe lhe repreender? Por que procurará um assistente social ou psicólogo que faz publicações gozando de seu sofrimento? Ou prestará queixa na delegacia sabendo que o policial que a atenderá pensa que o seu drama não passa de frescura?

O que fazer? Como devemos proceder?

Não existe uma “receita de bolo”, ou seja, uma resposta pronta para essa questão, ela é complexa e envolve vários fatores, que estão sobrepostos. E cada caso é um caso!
Mas existem algumas atitudes que podem contribuir para reduzir esses casos.
A primeira delas é abandonar o preconceito! Parar com as “piadinhas”. Entender que o suicídio é um caso sério, uma questão de saúde e deve ser tratado com seriedade.
Segunda: não apresentar uma atitude moralista, ser o inquisidor da pessoa que padece. Mas ser um ouvido amigo. Mostrar disposição para poder acolhe-la e contribuir para minimizar o seu sofrimento.
Terceira: evitar atitudes que possam contribuir para o rebaixamento da pessoa, que diminua a sua autoestima.
Quarta: procurar acompanhamento especializado. Em muitos casos, somente a boa ajuda não basta, é necessário o atendimento psicológico e psiquiátrico.
Quinta: observar as atitudes dos filhos e alunos. É no mínimo estranho o fato de um adolescente estar acordando às 4h20, se cortando, se isolando. E isso passar despercebido pelos pais.
Sexta: Estar atenta ao que a pessoa fala. O ditado: “Cão que ladra não morde” não vale para esse caso. Antes de cometer o suicídio a pessoa já disse de forma direta ou indireta isso para várias pessoas e não encontrou apoio.
Sétima: esse tema deve ser discutido, analisando. Devemos lutar por uma educação que reflita sobre o ser humano e seus dramas existenciais e não apenas o prepare para o vestibular ou para o mundo de trabalho. Não somos máquinas! Somos humanos com sonhos e pesadelos, tristezas e alegrias!
E por fim, esse assunto é muito sério! E assim deve ser tratado pelas pessoas! O jogo “baleia azul” é apenas a ponta do iceberg. Pode ser que ele em si próprio não constitua um problema de fato ou que caia no esquecimento em breve, todavia devemos ter em mente que o suicídio é um perigo real, que vitimiza cada vez mais pessoas. É bom lembrar que estaticamente há uma maior probabilidade de alguém se suicidar do que ser assassinada.

domingo, 16 de abril de 2017

A Ressurreição em tempos de Crise



Prof. Wilson Horvath

Na Sexta-Feira da Paixão, recebi a triste notícia que um aluno havia falecido, ele perdeu a luta contra as drogas e o crack fez mais uma vítima! O menino era bom, educado, atencioso; após as aulas, quase sempre vinha falar comigo, tecia um comentário sobre o conteúdo ou apresentava um questionamento. Nessas conversas, falava das dificuldades em se libertar do vício e também apresentava belos sonhos para o futuro...
Sua morte me trouxe uma enorme tristeza, primeiro perdi uma pessoa querida. E como educador fui impotente diante daquela situação, não consegui fazer uma intervenção adequada que pudesse colaborar no redimensionamento de sua vida.
O vício e o consumo excessivo de drogas, sejam elas lícitas, sejam ilícitas, sejam as adquiridas na “biqueira”, sejam os psicotrópicos comprados com receituário na farmácia, é uma das manifestações do vazio existencial vivenciado por nós na contemporaneidade.
O ser humano é expropriado de sua humanidade, e somos coisificados, tornamos “coisa”, uma peça barata dentro do sistema de produção, que pode ser substituída, jogada fora a qualquer momento.
Nossa vida praticamente se resume ao trabalho, não somos mais gente! Somos humanoides cada vez mais parecidos com máquinas, vivemos para produzir; trabalhamos sem cessar, até nossas últimas forças, tenebrosos de sermos descartados na massa desempregada, o exército de reserva.
Essa relação de “coisas” ultrapassa os limites do mundo do trabalho e chega às relações pessoais, fazendo com que os antigos laços familiares, amorosos, de amizade, de solidariedade se apaguem. A outra pessoa, o próximo só é bom, enquanto dele se pode tirar algum proveito. E não servindo mais... o troca, o esquece, o elimina.
Para anestesiar nossa mente diante dessa realidade sombria nos é ofertado o consumo, o “Ser deu lugar ao Ter”. Não somos mais o que somos, tornamos o que consumimos. E por isso o fazemos de forma frenética e alucinatória, compramos sem precisar, muitas vezes sem nem saber para que serve; comemos compulsivamente; assistimos séries ou filmes um atrás do outro.
Nos isolamos do mundo diante da tela do computador ou celular, esses se tornam obsoletos quase instantaneamente após a compra, precisando ser substituídos por modelos mais novos, que desconhecemos a priori quais são suas atualizações.
As consequências são visíveis, por exemplo, no aumento do número de suicídios, cerca de 30% na última década, juntamente com o crescimento de quadros depressivos, de automutilação, em especial entre crianças e jovens, os que mais sofrem. E não podemos esquecer do consumo de drogas que abrevia a vida de tantos, como fez com meu aluno.
Esse cenário tão cruel e irracional clama por saídas. E muitas das soluções encontradas, não questionam a raiz do problema, apenas suas manifestações. E vão contra aqueles que sofrem, outras vítimas do sistema, e não contra quem o manipula.
Elas reacendem no sujeito, constantemente massacrado pelo sistema, aquilo que há de pior no ser humano, os monstros mais perversos.
É sempre bom lembrar a frase atribuída a Bertolt Brecht: “A cadela do fascismo está sempre no cio”. E em épocas como a que estamos vivendo, o ideário fascista ganha forças, se liberta da barreira do Superego, se materializa em alguns personagens asquerosos e caricatos. E no Brasil o ódio se canaliza contra àqueles que sempre sofreram: o pobre, o negro, o índio, a mulher.
Para salvar e manter esse desumano sistema em funcionamento, os poucos direitos que a classe trabalhadora conquistou ao longo de anos de luta são ameaçados, retirados por políticos inescrupulosos, vassalos ou membros da mesma elite que sempre mandou e usurpou o país.
Esse cenário é desanimador, nos amedronta, não sabemos como e por onde construir novos caminhos. Tal como ocorreu com os discípulos de Jesus após a sua crucificação ou nas dificuldades encontradas na travessia do deserto, que fez alguns hebreus terem saudades das cebolas do Egito (Nm 11, 5).
Mas a história não acaba no sofrimento, depois da escravidão vem a liberdade, da morte renasce a vida,  a esperança permanece sempre.
A palavra “Páscoa” quer dizer: “passagem”. Ela é celebrada por judeus e cristãos. No judaísmo se celebra a “passagem” da escravidão no Egito para a liberdade na Terra Santa. E os cristãos celebram a “passagem” da morte de Cristo para a vida ressuscitada.
A reflexão sobre a ressurreição serve a todos aqueles que aspiram a um mundo melhor. Ela pode ser lida e analisada não só por cristãos, mas também se abre para pessoas de outras religiões, inclusive aos ateus.
Ela reacende e renova a esperança. Ela abre a possibilidade para apostarmos, para lutarmos, pois, o fim não está na morte, mas na vida, como nos diz Hölderlin: “onde cresce o perigo, cresce também o que salva”.
A ressurreição pode ajudar a abrir nossos olhos para as correntes que nascem constantemente contra o sistema, que buscam de alguma forma um mundo mais humano e fraterno, tais como: movimentos feministas, indígenas, ecológicos, homoafetivos, étnicos, políticos, religiosos, economias solidárias, mídias alternativas.
Houve a ressurreição, a passagem da escravidão para a liberdade, a páscoa da morte para a vida!
Celebrar a Páscoa é ressuscitar a esperança, presente em cada um e uma de nós!
Por isso, não desanimemos, ao contrário: Caminhemos... lutemos... construamos a passagem para uma vida mais digna!


Feliz Páscoa!